Levantamento da Casa Mundo Market Intelligence com a Globo Gente mostra que produções nacionais geram identificação, mas sofrem com a falta de divulgação

O cinema brasileiro atravessa um período de maior reconhecimento dentro e fora do país, impulsionado pela presença crescente de obras nacionais em premiações, festivais e plataformas de streaming. No entanto, muito antes desse cenário de destaque, os brasileiros já demonstravam uma relação positiva com essas produções. Pesquisa realizada em 2023 pela Casa Mundo Market Intelligence, consultoria latino-americana especializada em inteligência de mercado, comportamento e tendências de consumo na América Latina, em parceria com a Globo Gente, combinou grupos de discussão realizados no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador com frequentadores e ex-frequentadores de salas de cinema, além de entrevistas com especialistas do setor, incluindo produtores, distribuidores, exibidores e profissionais ligados ao mercado audiovisual. Ela revela que os espectadores associam os filmes brasileiros à identificação, à representatividade e ao orgulho de ver a cultura do país retratada nas telas. A pesquisa está disponível cliclando AQUI.
Entre os principais atributos associados ao cinema nacional está sua capacidade de retratar a realidade do país. Os participantes associam essas produções a histórias, personagens, sotaques e contextos que ajudam a compreender melhor a diversidade brasileira, gerando identificação e senso de pertencimento.

“O estudo mostra que existe uma conexão genuína entre o público e as histórias brasileiras. As pessoas se reconhecem nesses personagens, nesses cenários e nessas narrativas. O cinema nacional ocupa um lugar importante na construção da nossa identidade cultural, mas essa identificação nem sempre se converte em visibilidade para as produções”, afirma Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Market Intelligence.
Apesar dessa percepção positiva, os entrevistados apontam que a visibilidade ainda é um dos principais desafios do cinema brasileiro. A falta de divulgação é apontada como uma das principais barreiras, somada à dificuldade de acompanhar estreias e à sensação de que os filmes brasileiros têm menos tempo de cartaz quando comparados às produções internacionais. Como resultado, muitos relatam dificuldade para acompanhar os lançamentos e descobrir novas produções brasileiras.
Essa distância também contribui para a permanência de alguns estereótipos. Sem contato frequente com diferentes produções, parte dos consumidores ainda associa o cinema nacional principalmente às comédias populares, também conhecidas como “comédia pastelão”, deixando em segundo plano dramas, documentários, suspenses e outras narrativas que vêm conquistando reconhecimento do público e crítica nos últimos anos.
O estudo também indica que os streamings não são vistos como adversários do cinema nacional, mas como canais complementares que facilitam o acesso às produções brasileiras. Nesse contexto, iniciativas como o Tela Brasil, plataforma pública dedicada à exibição de obras audiovisuais nacionais, ampliam as possibilidades de descoberta e circulação desses conteúdos, contribuindo para aproximar o público de filmes que muitas vezes têm alcance limitado nas salas de cinema.
Ao mesmo tempo, a experiência de ir ao cinema continua sendo valorizada pelos consumidores. Os entrevistados associam a atividade a momentos de lazer, diversão, imersão e convivência, valorizando a experiência coletiva proporcionada pelas salas de exibição. Nesse contexto, as plataformas digitais são vistas como complementares ao cinema, ampliando o acesso às produções sem substituir a experiência de assistir a um filme na tela grande.
Entre os principais fatores que têm afastado o público das salas estão o custo dos ingressos, somado às despesas com transporte e alimentação, além da falta de tempo disponível para atividades de entretenimento. Os entrevistados recorrem às séries para aproveitar o pequeno tempo livre que têm, como o horário de almoço do trabalho.
“Quando olhamos para os resultados, percebemos que o desafio não é despertar interesse pelo cinema nacional. O interesse existe. A questão está em ampliar as oportunidades de encontro entre essas histórias e o público, seja nas salas de cinema, ou por meio das plataformas digitais. O reconhecimento internacional recente mostra que há espaço para essas produções conquistarem cada vez mais relevância, mas isso depende também da capacidade de gerar conversa, expectativa e descoberta”, finaliza Adriana.


